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Entrevistas
Sábado, 16 de dezembro de 2006, 09h00  Atualizada às 09h05
"Antes de ser galã, sou ator", afirma Edson Celulari
 
Gabriela Germano
 
Pedro Paulo Figueiredo/TV Press
Edson Celulari vive Silvio na novela  Páginas da Vida
Edson Celulari vive Silvio na novela Páginas da Vida
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Edson Celulari, 48 anos, até já incorporou personagens com perfis incomuns na tevê. Casos do "capa e espada" Jean Pierre, de Que Rei Sou Eu? ou do italiano de cabeça raspada Ciccino Matarazzo, da minissérie Um Só Coração. Mas os galãs seduzidos são os que mais recheiam o currículo do ator. Foi assim com o tio Glauco, de América, que se deixou levar pela jovem Lurdinha, vivida por Cléo Pires. É assim com o militar Silvio, personagem que interpreta em Páginas da Vida, e que já se apaixona pela segunda mulher na trama.

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A classificação de galã, comumente atribuída a ele, não causa incômodos. "Antes de ser galã, sou ator. É isso que importa", afirma. Com encantadores olhos azuis e muito em forma, Edson continua fazendo sucesso entre as fãs e entre as personagens do folhetim que protagoniza. Apesar da aparência impecável, o ator põe em dúvida suas capacidades para continuar interpretando bonitões por muito tempo. "Já cheguei em um determinado ponto. Vamos ver até quando terei o perfil para fazer galãs", relativiza.

Com 27 anos de carreira televisiva, como é trabalhar pela primeira vez em uma novela escrita por Manoel Carlos?
Estou adorando a experiência e me divertindo muito. Acho que o Maneco tem uma sensibilidade muito aguda para tratar o cotidiano. Às vezes de um ponto de vista dramático, às vezes trágico e, em outras, simplesmente com um olhar cotidiano mesmo. Sempre gostei de acompanhar as novelas dele como telespectador. Agora, participar de uma, é melhor ainda.

Uma das características do autor é entregar os capítulos em cima da hora. Como você lida com isso?
Pelo menos para mim, não é ruim. Esse é um estilo dele e a gente tem de respeitar. Tento assimilar isso e transformar em algo que seja estimulante. Não é possível planejar o personagem em uma novela dele, mas me entendo bem com o texto e não sofro por isso. Se tenho uma cena com a Olívia (personagem de Ana Paula Arósio), por exemplo, que pode desencadear uma discussão ou um lindo beijo romântico, tenho que atuar de uma maneira que possa gerar essas duas possibilidades no futuro. Isso é um ótimo exercício. Quanto ao problema de decorar as falas, em uma novela com tantos atores, sempre dá tempo. O problema maior de receber os roteiros em cima da hora é o quanto isso interfere no nosso cotidiano pessoal. Se não sei o que vou fazer amanhã, fica difícil marcar um médico ou um outro compromisso qualquer. Mas sei que isso vai durar um período específico e me preparei para essa realidade.

Como você disse, as novelas de Manoel Carlos têm um elenco grande. O fato de alguns pesonagens "serem colocados de escanteio" na história o incomoda?
Todo mundo que atua nas novelas do Maneco sabe que ele trabalha com um elenco gigantesco. E é impossível escrever uma novela com mais de 100 atores em que todos tenham destaque o tempo inteiro. Isso não me incomoda nem um pouco. Não vejo problema que minha história fique mais apagada em algum momento para que ele trate de outro assunto. E quer saber? Tem espaço para todo mundo. Vários colegas, antes da novela começar, me deram um toque em relação a isso, já que era a minha primeira experiência com o autor. Mas acho bacana esse "rodízio" de temas com o qual ele trabalha. Penso, inclusive, que isso faz a novela funcionar junto ao público. É uma diversificação de assuntos e, a cada noite, você senta para acompanhar uma página da vida de um personagem ou de outro.

Mas seu personagem, o Sílvio, já gerou polêmica desde a estréia da novela, com a cena de nudez na noite de núpcias. Você se surpreende com a reação do público em relação a algumas cenas que já protagonizou?
Falando da cena da noite de núpcias, o público se aproximou de mim de uma maneira bacana. Disseram que foi uma cena linda, que nós dois estávamos bonitos. Tudo o que foi contrário a isso acho que é especulação da mídia. Afinal de contas, os personagens estavam se casando e aquela era a lua-de-mel deles. Quanto à nudez em determinado horário, é preciso ter um critério de responsabilidade em relação ao público. E a Globo já demonstrou isso. Espera-se que as crianças, em uma novela que passa às nove da noite, já estejam dormindo. Houve até uma polêmica, dizendo que eu proibia meus filhos de assistir. Não proíbo, mas acho que tenho de selecionar aquilo que eles vêem. Os dois, Enzo e Sophia, dormem antes das nove e, por isso, não poderiam mesmo ver. E a algumas cenas eu não deixo assistir porque é o pai beijando outra mulher. Para que eles vão assistir a uma cena dessas? Minha filha só tem três anos! Esse nível de clareza todos os pais deveriam ter.

E um dos pontos que fez o casamento do Sílvio e da Olívia desandar é a maneira diferente como eles encaravam a educação do filho. Você trouxe para o personagem alguma coisa de sua experiência real como pai?
Acho que o Silvio pega muito pesado. Não tenho essa postura militar em casa. Mas tento criar uma disciplina. Houve uma cena em que ele dizia que toda criança precisa ter uma rotina, saber a hora de acordar, de comer, de tomar banho, enfim, precisa ter referências. Com isso eu concordo. Só não apóio a severidade do Sílvio. Penso, sim, que os filhos precisam ter um cotidiano e que isso precisa ser ensinado dentro de casa. Caso contrário, vão se tornar adultos que não sabem dividir o tempo ou encaminhar as tarefas. Esse critério do Sílvio eu tenho, sim.

Que outras referências você buscou para compor o Sílvio?
Tive um contato com o pessoal da aeronáutica. Mas também já tinha tido uma experiência com os militares quando fiz o Capitão Hélio, de "Aquarela do Brasil". Acho que o comportamento militar tem como marca a rigidez. O próprio Maneco já escreve o personagem assim. Não precisei ficar em um quartel por uma semana. Mas a idéia do Maneco foi criar um militar sem ser extremamente rígido. Nada de pescoço duro, coluna ereta e arquetipal. O Sílvio é um cara um pouco mais solto, que se casou com uma mulher muito mais liberal do que ele. Particularmente, gostava muito do contraste entre ele e a Olívia. Ao mesmo tempo que as diferenças entre eles geravam atritos, atraíam os dois. Não é à toa que ele se envolveu com a Tônia Verneck, mulher ainda mais liberal. Acho que o Sílvio é atraído por essas mulheres.

Acha mesmo que o Sílvio é atraído por essas mulheres? Ou na verdade é ele que as seduz?
Não acho o Sílvio tão sedutor. Ele não sai cantando as mulheres. Penso que há coisas que estão impregnadas no ator. O carisma, o dom para fazer comédia. Cada um tem um espaço. Geralmente me são designados personagens que têm vários relacionamentos afetivos, com o arquétipo do galã. Mas não me incomodo de ser classificado como galã porque já fiz personagens que fogem desse perfil. Não parto do princípio de que sou um ator sedutor. Mas se o personagem é, não vejo problemas. E já estou em uma certa altura da vida que não sei até quando vou continuar a fazer esse tipo de papel.

Sedutor ou não, o Sílvio já se envolveu com a Olívia e com a Tônia. Ele também vai se relacionar com a Márcia?
As novelas do Maneco sempre geram uma novela paralela. A história do "o que será que vai acontecer?". Especula-se que o Sílvio vá se envolver com ela, mas nunca soube disso. A especulação se repete, como no caso da bissexualidade do personagem, que tanto comentaram.

Você não confirma que, em algum momento, o autor cogitou que o Silvio fosse bissexual?
Não havia essa intenção. Só repassei as informações que recebi do autor e da emissora. Se viesse isso no perfil do personagem, eu faria e pronto. Não tenho problema de fazer qualquer tipo de personagem, desde que ele gere uma discussão interessante. O ator tem de ter essa disponibilidade. Mas não foi o caso e o personagem seguiu um caminho diferente.

Foco na família
Edson Celulari já foi um ator multiatarefado. "Na minha carreira, sempre fiz várias coisas ao mesmo tempo", confirma. Mas a realidade mudou depois que se tornou pai. Casado com a atriz Cláudia Raia há 15 anos, o ator prefere reservar tempo na agenda para se dedicar a Enzo, 10 anos, e à Sophia, 3. "Hoje em dia fica complicado se dividir entre teatro e tevê. Preciso estar presente em casa. Prestigiar momentos importantes na vida de nossos filhos", analisa.

Para também manter em alta a união com Cláudia, eles se apaixonaram durante as gravações de Deus Nos Acuda, de 1992, Edson confessa ainda que o casal prefere não trabalhar junto. "A convivência excessiva no trabalho pode trazer a morte de um casamento", filosofa. Com todas as atenções voltadas para o bem-estar da família, os dois ao menos tentam se revezar nos trabalhos, para que um sempre esteja presente em casa. "Procuramos não fazer novela ao mesmo tempo. A ausência concomitante do pai e da mãe não é o ideal para as crianças", enfatiza.

Desejo de ser cavaleiro
Mesmo com o ritmo intenso de gravações de Páginas da Vida, Edson Celulari já planeja novos trabalhos para 2007. Quando a novela de Manoel Carlos chegar ao fim, o ator pretende se dedicar ao teatro e concretizar um projeto que acalanta há dois anos. Ele quer viver Dom Quixote nos palcos. Quem faz a adaptação do clássico de Miguel de Cervantes é o cineasta Rui Guerra. A idéia é ambientar a história do Cavaleiro da Triste Figura no Nordeste brasileiro. "Estou muito entusiasmado com esse projeto. Interpretar Quixote sempre foi um sonho", confessa empolgado.

Trajetória Televisiva
- "Gaivotas" (Tupi, 1979) - Mário.
- "Marina" (Globo, 1980) - Ivan.
- "Plumas e Paetês" (Globo, 1980) - Kurlan.
- "Ciranda de Pedra" (Globo, 1981) - Sérgio.
- "O Homem Proibido" (Globo, 1982) - Carlos.
- "Louco Amor" (Globo, 1983) - como Marcelo Paiva (participação).
- "Guerra dos Sexos" (Globo, 1983) - Zenon da Silva.
- "Amor com Amor se Paga" (Globo, 1984) - Tomás Correia.
- "Um Sonho a Mais" (Globo, 1985) - Joaquim.
- "Cambalacho" (Globo, 1986) - Thiago Souza e Silva.
- "Sassaricando" (Globo, 1987) - Jorge Miguel.
- "Chapadão do Bugre" (Band, 1988) - José de Arimatéia.
- "Que Rei Sou Eu?" (Globo, 1989) - Jean Pierre.
- "Brasileiras e Brasileiros" (SBT, 1990) - Totó.
- "Deus Nos Acuda" (Globo, 1992) - Ricardo Bismark.
- "Fera Ferida" (Globo, 1993) - Raimundo Flamel/Feliciano Júnior.
- "Decadência" (Globo, 1995) - Mariel Batista.
- "Explode Coração" (Globo, 1995) - Júlio Falcão.
- "A Justiceira" (Globo, 1997) - Jamil.
- "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (Globo, 1998) - Vadinho.
- "Torre de Babel" (Globo, 1998) - Henrique Toledo.
- "Vila Madalena" (Globo, 1999) - Solano.
- "Aquarela do Brasil" (Globo, 2000) - Hélio Aguiar.
- "As Filhas da Mãe" (Globo, 2001) - como Edmilson Rocha (participação).
- "Sabor da Paixão" (Globo, 2002) - Jean.
- "Celebridade" (Globo, 2003) - no papel dele mesmo (participação especial).
- "América" (Globo, 2005) - Glauco.
- "Páginas da Vida" (Globo, 2006) - Sílvio.
 

TV Press
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